Ainda sobre a reforma da LP

By désenchantée

Comunidade dos Pases de Lngua Portuguesa

Portugal era o país que faltava para aprovar a tal da reforma ortográfica de língua falada em oito países completamente diferentes. Que bela notícia recebi hoje: o governo português finalmente assinou o documento concordando com a reforma e se tornou o quarto e último país a querer unificar o idioma português, repetindo, o qual é falado em OITO países, um em cada canto do mundo, a milhas e milhas de distância entre um e outro.

Olha, se tu nunca soube que analisar se escreve com s e não com z, fica tranqüüüüüüüüüüilo, pois tu vai continuar sem saber. Em compensação, pra tua alegria, graças aos sábios, o trema foi abolido e tu nunca mais vai precisar se preocupar com “os malditos pontinhos que não servem pra nada”, assim como o acento circunflexo nas primeiras vogais em hiatos finais e das formas verbais. Aquela regra maldita e complexa do hífen que tu nunca soube onde pôr, pra contentamento geral, deixou de ser complexa, mas muito confusa. Um exemplo: em formações com os prefixos acentuados pós, pré e pró, quando o segundo elemento tem vida à parte, se mantém o hifen, como pré-requisito. Que raios é “ter vida à parte” ???????????????? E o que “pré-requisito” tem de vida nisso?????????????????

Apenas a critério de informação, “aqueles malditos pontinhos que não servem pra nada” têm sua utilidade, sim. Aquela “excrescência” é um sinal diacrítico que serve para marcar a pronúncia da vogal átona. TÁ?

Eu sou a favor de uma ortografia histórica, sou contra reformas ortográficas. É inevitável conter as evoluções da língua falada. Taí a prova maior que essa unificação é ingênua e burra. Daqui a 10, 20 anos haverá outra reforma com o mesmo intuito: aproximar a escrita da fala. Mas é na escrita que se encontra a nossa essência, a nossa história, a nossa identidade, o que fomos, quem éramos. A língua é viva, de que adianta mudar algumas coisas, não mudar outras e se daqui um tempo “vai estar tudo diferente de novo”?

Se AO MENOS essa tal reforma fosse coerente, mas não. Nos acentos diferenciais, por exemplo, vão abolir o acento em algumas palavras, mas vão abrir exceção para outras. O que tem de lógico e facilitador nisso? Não bastava as 584 mil regras de acentuação em palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas que quase nunca ninguém sabe onde vai e onde não vai o acento?? Fora os casos facultativos….

Minha vó, por exemplo, passou por todas as reformas desde que começou essa modinha de querer facilitar a escrita, aproximando-a da oralidade. Até hoje eu a vejo escrever meses com acento circunflexo, bem como minha mãe. Imaginem o nó que dá na cabeça da pessoa, tem algum quesito facilitador nisso? Nenhum, a não ser nossa história que vai sendo esquecida e REFORMADA ao longo do tempo…

Tinha coisa mais linda do que escrever farmácia com ph e teatro com th?? (infelizmente, nunca tive esse privilégio) As pessoas dizem que o francês “é muito difícil” e “lindo”: uma palavra tem 15 mil letras pra dois fonemas. Ao meu ver, a beleza e a sensualidade da língua francesa se encontra justamente na manutenção da sua ortografia histórica em contraponto com a evolução da língua.

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